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Jaguar Perfumado

aqui... asas para voar, raízes para regressar e motivos para ficar! - Dalai Lama -

Jaguar Perfumado

aqui... asas para voar, raízes para regressar e motivos para ficar! - Dalai Lama -

Seg | 30.03.20

Teletrabalho “Primeiro estranha-se, depois entranha-se!”

Para mim, com o modelo largamente testado, sabia pela certeza que iria funcionar lindamente (...)

Frankie

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img. by excutiva.pt

Não sou novata nisto, já o faço parcialmente há mais de 2 anos. No início foi estranho, achei que não iria funcionar. Nunca o tinha feito e achei que a preguiça levaria a melhor, mas a realidade foi bem diferente. Todos os dias me levanto e faço a rotina matinal, preparo-me para sair tal como num dia de trabalho no escritório. A diferença reside, tão simplesmente, no facto de que o escritório fica ao alcance de um lanço de escadas. Fantástico, realmente!
Não foi difícil perceber as vantagens associadas, comecei a achar bem agradável, um corte na rotina de ter que enfrentar o trânsito diariamente a funcionar como um detox, a meio da semana. Tal como prevenia o nosso grande poeta: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se!”

 

Todo o tempo que consigo maximizar por não ter de o despender entre percursos de deslocações para o local de trabalho, é francamente tempo útil para aproveitar e fazer muitas outras tarefas igualmente inadiáveis e imprescindíveis. Sempre funcionou muito bem e a ideia de ficar em casa um ou mais dias por semana, foi uma realidade que se instalou gradualmente e ganhou bastante importância. Tal como referi, ganho tempo precioso nas deslocações, poupo o dinheiro que essas deslocações implicam e ainda sou bem mais produtiva durante o dia de trabalho. Mantenho-me muito mais focada, não despendo tempo em confraternizações irrelevantes, bebo menos café, como menos e como muito melhor, bem mais saudável.

Não foi, pois, com desagrado que acolhi esta ideia de passar a trabalhar de casa integralmente a semana toda. Para mim, com o modelo largamente testado, sabia pela certeza que iria funcionar lindamente sem grande constrangimento.

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img. by Pascal Campion @tutoriart.com.br

Há, apenas uma ligeira diferençazinha, que na realidade, em termos práticos faz toda a diferença e, sobre a qual, confesso, não ponderei.
Em tempos banais não tinha os meus filhos à perna, a reclamarem atenção de todos os lados. São apenas dois, mas ocupam a casa toda, estão em todo o lado. O mais pequeno, com apenas 3 anos, sempre exigente a precisar de muita atenção mesmo quando se ocupa com alguma tarefa ou brincadeira. O mais velho, com 10 anos e a ter aulas online, com os amigos todos a entrarem por nossa casa a qualquer momento do dia, sem fazerem qualquer cerimónia.
O resultado, é um ajuste completo à nova rotina, um ajuste em função da rotina de todos nós como um só. Já não sou só eu a trabalhar de casa, hoje somos todos e, cada um com a sua rotina, o seu ritmo, as suas exigências.
Hoje, a faceta profissional tem de conviver com a faceta de Chef, serviço doméstico, que por sua vez tem de conciliar com as tarefas da professora, educadora, entertainer, psicóloga, etc…. OMG!!

 

Estamos naturalmente e invariavelmente, ocupados o dia todo. Não há um momento de tédio ou, sequer, de parar para pensar o que fazer a seguir, seguimos com a nossa rotina, o mais ocupados possível, sempre com tarefas por completar. Convenço-me que é a forma certa de levar. Todos os dias nos deitamos à noite, cansados e com a sensação de um dia cumprido na plenitude.

Claro que sentimos falta de sair à rua, de pairar por aí à deriva, livremente, sem horas nem embaraços. Temos saudades do convívio com os nossos amigos e a nossa família. As conexões eletrónicas nunca poderão colmatar essa necessidade que sentimos do contacto humano. Temos saudades dos locais que gostamos de frequentar ou visitar.

Muito fica por viver! Mas, o que importa, é que estamos todos bem. Estamos juntos no conforto da nossa casa, e estamos bem. Nada supera isso. A tranquilidade de sentirmos que se nos mantivermos isolados, vamos evitar ser contagiados por esse vírus intransigente, obsessivo, doentio.  

 

 

Qua | 25.03.20

Primavera que não chega

Somos povo da rua, da esplanada populada, do abraço e do beijinho, somos povo de calor.

Frankie

rena.jpgimg. by https://bloglovin.com

A Primavera que não chega!
Atípicamente, este ano recusamos abrir a porta àqueles dias de sol perfumados pelo brotar das primeiras flores do ano! Este ano ninguém fala da Primavera, ninguém notou que se instalou, ninguém quer saber do calor tímido que se começa a fazer sentir e que em outros tempos nos fazia saltar do sofá em direção a um jardim, à praia, ou pelo menos até uma esplanada de café bem posicionada a poente! Ninguém quer saber, porque ninguém sabe ou é capaz de prever quando é que o Inverno terá um fim.

Tal e qual numa guerra, tal e qual a célebre música dos Delfins “Aquele Inverno” que nos arrepia a espinha e retira a compostura, ficamos desconcertados!
Ficamos em casa com receio de não resistirmos à sedução do bom tempo que lá fora espreita e convida. Guardamos os afetos para verdadeiros dias de sol, dias de namoro nunca antes, em qualquer circunstância, foram tão desejados e tão cobiçados.

O mal é que isto ainda agora começou e já parece não ter fim, tal como uma espiral invertida sem fim.
Nós portugueses, povo de afetos, de calor e descontração não podíamos ser mais castigados com a dureza infindável do inverno! Somos povo da rua, da esplanada populada, do abraço e do beijinho, somos povo de calor.

esplanada LX Factory.jpg
img. by http://www.maiorviagem.net/sunset-em-lisboa-lx-factory/

Confrontados com o Inverno que atravessamos, não sabemos como sobreviver, não temos estofo! Precisamos de calor e de contacto social, somos um povo carente de afeto, ansiamos por dias de beijinhos e muitos abracinhos. Não sabemos conceber a nossa vida sem afabilidade, sem amabilidade humana. Ficamos sem jeito ao abordar um conhecido, sem podermos dirigir-nos imediatamente com um beijo ou, pelo menos, um mais sóbrio aperto de mão. Não percebemos esses relacionamentos indiferentes ao toque, ao contacto, ao afeto, esses relacionamentos sóbrios, frios, tão próprios dos povos nórdicos. 


Tento imaginar, sobre o que fará o nosso caríssimo Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa nas suas correntes visitas aos eventos, feiras, aglomerados populacionais espalhados pelo país, sem poder distribuir beijocas e apertos de mão indiscriminadamente como se não houvesse amanhã! Penso, como serão as campanhas eleitorais a partir deste momento, sem poder contar com o encanto tão peculiar destas manifestações de rua, que passa pela distribuição descontrolada de beijos e abraços por entre toda a população carente e que, em boa verdade, exige esse contacto físico. Estamos, realmente, perante um novo paradigma!

marcelo.jpgimg. by https://radioaltominho.pt/

A Primavera está lá fora, todos a vemos bem, mas ao longe, porque agora não estamos autorizados a senti-la ou a vivê-la. Fica, por enquanto, no nosso imaginário, permanece nas nossas recordações de outros tempos tão mais leves e despreocupadas, como um sonho que guardamos e escondemos religiosamente. Como um sonho que protegemos a todo o custo, pelo risco iminente de se poder desvanecer e se perder.

“(...)Perguntei ao céu, será sempre assim?
Poderá o inverno nunca ter um fim?
Não sei responder
Só talvez lembrar
O que alguém que voltou a veio contar recordar
Recordar…”

Compositores: Miguel Ângelo / Fernando Cunha 
by Delfins

 

 

Seg | 23.03.20

Viver devagar ou ironia do destino?!

A mudança de ritmo que antes era só uma opção passou, hoje, a ser a fórmula para sobreviver!

Frankie

suesotto.blogspot.com.br.jpgimg. by suesotto.blogspot.com.br

 

Estranha coincidência, será? No início do ano tracei uma resolução, decidi passar a viver mais devagar. Resolvi que era tempo de parar com a vida na forma como se desenrolava. Percebi que se não passasse a viver mais descontraidamente, mais cedo ou mais tarde, as consequências chegariam… nessa altura escrevi, mas não publiquei, talvez porque soubesse que não iria conseguir cumprir, um texto com a minha resolução. Na verdade, hoje leio e percebo que o sarcasmo está presente em cada palavra do texto, realizo que tudo não passava de um desabafo cínico e irreal sem qualquer perspetiva de funcionar:

Mantenho o emprego numa multinacional, continuo a viver no centro de Lisboa e a fazer a 2ª circular quase todos os dias, do início ao fim, gerir a casa, cuidar dos filhos e do cão, marcar consultas, gerir extracurriculares, reuniões de escola, gerir refeições, ir às compras, manter as roupas entre muitas outras coisas, mas começando a viver mais devagar. Com isto quero dizer, deixar de correr de um lado para o outro, eliminar o medo de chegar atrasada a todo o lado. Manter o sorriso e acordar todos os dias às 6h45 feliz e contente porque tenho uma família linda, saudável, uma casa fabulosa e um emprego de sonho! É esta, definitivamente, a minha resolução para 2020. Acho que consigo!

Deixo o ginásio de lado, deixo a leitura de lado, deixo os amigos para as férias, só não deixo o meu querido blog de lado e acho que consigo! Vai resultar, estou certa que sim.
Mantenho, é desta que vou começar a viver mais devagar…

Apesar desta resolução firme, determinada e segura, a verdade é que tal não aconteceu, o ritmo não abrandou nem por sombras, aliás, acelerou e a olhos vistos. Tudo aquilo que fazia com muita ajuda e dividia a dois, passei a fazer sozinha, sem o mesmo suporte que tinha até aí. A vida foi acelerando, com mais viagens, com mais projetos pessoais, desafios profissionais, acelerou prego a fundo com mais e mais afazeres a cada dia.

 

Estranha coincidência, será? Hoje, já não corro, já não chego atrasada, os meus filhos não chegam atrasados e não ficam pendurados na escola, as extracurriculares foram canceladas. Hoje, por ironia do destino, estamos exatamente como almejávamos e achávamos, porém, ser impossível concretizar, sem corridas, sem atrasos, sem pressão para cumprir com horários!

Deixei de sair para ir trabalhar, deixei de sair para ir às compras, deixei de correr para apanhar os meus filhos na escola… os miúdos passaram a ter escola em casa, o T voltou a ficar em casa, sem viagens e sem qualquer agenda fora de casa, que não seja virtual.

Este mundo em que vivemos é, hoje, um novo mundo ou mesmo, o novo mundo. A nossa realidade é, por estes dias, algo que nem ponderávamos ser possível, é a realidade de um filme de ficção científica, com um vilão, com vítimas prováveis e muitos heróis a fazer das tripas coração para lutar contra esse vilão invisível que não dá tréguas, avança sem esmorecer, sem mostrar qualquer escrúpulo e vai conquistando vitórias, por entre os terrenos que desbrava. Um filme, ainda sem resolução à vista…com um desfecho impossível de prever.

Entretanto, nós seguimos, fechados em casa tentando adaptar-nos ao novo mundo, comunicando com a família, os amigos e colegas de trabalho à distância. Ficamos em casa à espera que a magia aconteça, agarramo-nos às pequenas vitórias do dia-a-dia e recolhemos tudo o que de bom esta experiência nos vem trazendo. Por agora, esperamos que o filme acabe, ansiosos pelo fim feliz em que todos ficamos bem, a salvo e podemos novamente respirar, tocar, abraçar, beijar sem medo, todos aqueles que nos são mais queridos!
Quem sabe, se esta experiência não irá contribuir positivamente para traçar um novo rumo, conseguir entender que a mudança de ritmo deixou de ser uma opção para se transformar numa imposição.

 

Qua | 18.03.20

Covid-19 e a revolta do papel higiénico

Frankie

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img. by Pintrest 

Se não fosse trágico este evento poderia ser facilmente confundido com um filme cómico ao velho estilo Monty Python - o dia em que o vírus se propagou e o papel higiénico acabou.
Realmente se não fossem os tempos de incerteza, desconhecimento face ao corrente panorama, o facto de termos de nos manter isolados e evitar a todo custo o contacto social, estaríamos todos a rebolar de tanto rir mediante o mistério do desaparecimento do papel higiénico de todas as prateleiras de cada um dos inúmeros supermercados à nossa volta. Esta pandemia constará certamente dos anais da história como um trágico evento que se propagou à velocidade da luz pelo planeta inteiro sem misericórdia dizimando milhares de vidas num curto espaço de tempo mas, mais do que isso, e adicionalmente, o momento em que todos perceberam que mais do que evitar o contágio é preciso açambarcar, em casa, papel higiénico até não poder mais!


toilet-papers.jpg
img. by https://www.bhg.com.au/best-toilet-paper

Quando tudo isto tiver passado e a nossa disposição para rir estiver um pouco mais solta, vamos parar e analisar estas reações e vamos rir sem conseguir parar, tal como num filme dos geniais Monty Pithon, em que o absurdo domina todo e qualquer racional e desmonta qualquer intenção, esforço de contenção para rir, rir, rir como se não houvesse amanhã!

Juntem ao elenco o Arnold Schwarzenegger e está garantido o sucesso de bilheteira - o Covid-19 chegou feroz e assertivo como só ele, ameaçou a espécie humana, mas menosprezou o poder do papel higiénico.

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img. by C. J. Burton - Getty Images

Voltando ao âmago da questão, continua por determinar a função do papel higiénico neste contexto, ou pelo menos, a relação entre a sua quantidade em cada casa e o Covid-19. Há muitas teorias, uma das quais, que pode fazer algum sentido.

Sugere que todo este contexto que vivemos provoca em nós seres humanos um nível de ansiedade altíssimo que, fisiologicamente, se revela ocasionalmente, na necessidade de ir ao WC. A sensação depois disto é, naturalmente, de uma leveza triunfante, uma vitória do bem sobre o mal, neste caso, especificamente, reflete a vitória sobre o corona vírus e consequente alívio dos níveis de ansiedade.
Afinal, pensemos racionalmente, quando estamos aflitos, para onde é que vamos passar o tempo, hummm? Onde é que queremos estar? Evidente, queremos ir ao WC e, nessa altura, para finalizarmos e sairmos triunfantes, do que é que precisamos? Muito, muito papel higiénico, de preferência de folha tripla. 

Pode ser uma forma peculiar, estranha(?) de justificar este fenómeno mas, quem sabe, talvez faça sentido?! O corona vírus que se cuide...

 

 

Qua | 18.03.20

Covid-19 e a revolta do papel higiénico

Frankie

wc.jpg
img. by Pintrest <br>

Se não fosse trágico este evento poderia ser facilmente confundido com um filme cómico ao velho estilo Monty Python - o dia em que o vírus se propagou e o papel higiénico acabou.
Realmente se não fossem os tempos de incerteza, desconhecimento face ao corrente panorama, o facto de termos de nos manter isolados e evitar a todo custo o contacto social, estaríamos todos a rebolar de tanto rir mediante o mistério do desaparecimento do papel higiénico de todas as prateleiras de cada um dos inúmeros supermercados à nossa volta. Esta pandemia constará certamente dos anais da história como um trágico evento que se propagou à velocidade da luz pelo planeta inteiro sem misericórdia dizimando milhares de vidas num curto espaço de tempo mas, mais do que isso, e adicionalmente, o momento em que todos perceberam que mais do que evitar o contágio é preciso açambarcar, em casa, papel higiénico até não poder mais!


toilet-papers.jpg
img. by https://www.bhg.com.au/best-toilet-paper

Quando tudo isto tiver passado e a nossa disposição para rir estiver um pouco mais solta, vamos parar e analisar estas reações e vamos rir sem conseguir parar, tal como num filme dos geniais Monty Pithon, em que o absurdo domina todo e qualquer racional e desmonta qualquer intenção, esforço de contenção para rir, rir, rir como se não houvesse amanhã!

Juntem ao elenco o Arnold Schwarzenegger e está garantido o sucesso de bilheteira - o Covid-19 chegou feroz e assertivo como só ele, ameaçou a espécie humana, mas menosprezou o poder do papel higiénico.

C. J. Burton - Getty Images.jpg
img. by C. J. Burton - Getty Images

Voltando ao âmago da questão, continua por determinar a função do papel higiénico neste contexto, ou pelo menos, a relação entre a sua quantidade em cada casa e o Covid-19. Há muitas teorias, uma das quais, que pode fazer algum sentido.

Sugere que todo este contexto que vivemos provoca em nós seres humanos um nível de ansiedade altíssimo que, fisiologicamente, se revela ocasionalmente, na necessidade de ir ao WC. A sensação depois disto é, naturalmente, de uma leveza triunfante, uma vitória do bem sobre o mal, neste caso, especificamente, reflete a vitória sobre o corona vírus e consequente alívio dos níveis de ansiedade.
Afinal, pensemos racionalmente, quando estamos aflitos, para onde é que vamos passar o tempo, hummm? Onde é que queremos estar? Evidente, queremos ir ao WC e, nessa altura, para finalizarmos e sairmos triunfantes, do que é que precisamos? Muito, muito papel higiénico, de preferência de folha tripla. 

Pode ser uma forma peculiar, estranha(?) de justificar este fenómeno mas, quem sabe, talvez faça sentido?! O corona vírus que se cuide...

 

 

Seg | 16.03.20

Amar... em quarentena

Frankie

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img. by https://tech.fanpage.it/andra-tutto-bene-le-immagini-di-buongiorno-da-mandare-su-whatsapp/

Hoje é um dia especial para mim, para nós cá em casa. Faz 10 anos que dei à luz o meu primogénito. Já dizia a música, 10 anos é muito tempo! Faz hoje exatamente uma década que tudo mudou, eu mudei, a minha vida mudou. Desengane-se quem pensa que o nascimento de um filho não muda nada, é mentira. Muda tudo. Acima de tudo descobrimos em nós uma capacidade, uma vertente humana que nos transforma para sempre.

Não tem a ver com mudanças no estilo de vida, é certo que aqui também acontece, mas não é por aí que me quero focar, porque esse, para mim, é o menor impacto. Tudo é ajustável e adaptável.
O verdadeiro impacto está na nossa transformação como seres humanos, no nosso nível de consciência, sensibilidade, importância que atribuímos às situações, pessoas, envolvente em geral. No dia em que damos à luz, crescemos, e crescemos muito mais do que até aí algum dia. Tornamo-nos grandes, maiores, tornamo-nos melhores, passamos a assumir responsabilidades com outra importância. Passamos a ter alguém que depende de nós, do nosso bom senso e da nossa preparação para sobreviver.  A nossa vida ganha um significado superior, a partir daí até as paredes ganham vida, passam a respirar e passam a conspirar.

Os sentimentos que até aí nutríamos perdem expressão face aos que passamos a desenvolver. O tempo ganha outra importância. As barreiras caem subitamente, deixam de o ser, ultrapassá-las passa a ser bem mais simples, os obstáculos são outros, a nossa força torna-se indescritível. As perspetivas que mantemos sobre o mundo à volta, altera-se e ganha uma nova dimensão, com um impacto bem diferente. Os riscos surgem em catadupa, são imensos e bem mais intensos.  

O dia em que fui mãe, ganhei esta dimensão, perdi a futilidade, perdi ligeireza, ganhei objetividade. Percebi o meu sentido, a minha missão e ganhei essência. O alarme do relógio biológico, por fim, suou.

Hoje olho para este miúdo e vejo nele tudo o que me acrescentou, tudo o que me ensinou, tudo o que me deu.
Veio e ensinou-me a amar!

 Tudo mudou e, subitamente, 10 anos depois, na viragem desta década damos por nós a ter de cancelar a festa de aniversário com todos os amigos porque não podemos estar juntos e respirar do mesmo ar. Não podemos celebrar como de direito porque 10 anos depois somos confrontados com uma situação que talvez, só o visionário José Saramago tenha identificado quando criou a obra “Ensaio sobre a Cegueira”. Relembro hoje a intensidade desta obra, o impacto que previa na vida das pessoas daquela cidade. Hoje, damos por nós a cantar os parabéns em casa sem ninguém de fora para aplaudir, a não ser pela conexão em vídeo conferência que, felizmente, a tecnologia já permite.

Prometemos festejar como exige o marco dos 10 anos, mas futuramente. Quando tudo terminar e estejamos e possamos sentir a paz e a tranquilidade de nos podermos reunir livremente com os amigos, com a família, com outras pessoas no geral. Quando pudermos novamente respirar do mesmo ar e partilhar afetos, livremente, sem qualquer constrangimento. É um virar de década marcante que ficará, indubitavelmente, na memória de todos. Por agora, seguimos convictos na nossa quarentena, e fazemos muita força por acreditar que, no final, tudo vai correr bem, que “andrà tutto bene”! 

 

 

Seg | 09.03.20

Amor em estado puro

Frankie

carta_Frankie.jpg

A relação entre irmãos nem sempre é fácil. Suspeito que na maior parte dos casos será mesmo complexa de gerir. Tal como um casamento, é a partilha de toda uma vida entre pessoas muitas vezes muito diferentes, com perspetivas e objetivos de vida diferentes. Diferenças muitas vezes irreconciliáveis que podem facilmente contribuir para uma convivência atribulada e que pode mesmo culminar em rutura. Muita sensibilidade à flor da pele, pouco filtro para moderar, eventualmente um excesso de confiança resultante da convivência que pode fazer pensar que tudo pode ser dito e o outro só tem de aguentar.

Eu, com dois filhos rapazes pequenos, consigo já observar isso mesmo. Filhos da mesma mãe, mesmo pai, mesma educação, experiências similares mas que revelam já uma personalidade tão diferente, manifestam-na, cada um, à sua maneira. Um deles totalmente expressivo e emocional, o outro totalmente físico e bem mais introvertido. Pode parecer que dificilmente encontramos pontos comuns mas, felizmente, temos alguns, e dos bons – por exemplo, ambos gostam de cantar e dançar e, eu gosto de pensar que por influência da “pseudoartista” da sua mãezinha.

Voltando às diferenças, julgo que são o fator que faz da paternidade uma experiência tão rica e tão desafiante a cada dia, todos os dias! Contudo, podem ser estas as diferenças também a contribuir para afastamento de caminhos entre irmãos. Afastamento esse, que se não for motivado por uma incompatibilidade maior, pode inclusive, em casos extremos, ajudar e evitar um processo crítico de rutura.

Relações entre irmãos são muito pessoais, e há de todos os tipos. É difícil prever como podem evoluir. É um risco assumir que as relações entre irmãos serão sempre de amizade e cumplicidade.

Assumi esse risco quando decidi que o meu filho deveria ter pelo menos um irmão. Sempre quis que ele tivesse esta base de apoio, e pudesse contar com alguém que partilha com ele experiências, momentos, sentimentos, uma convivência só possível entre irmãos. Sempre achei importante que ele pudesse contar com alguém com as mesmas bases de formação e educação, no limite, alguém que partilhe os mesmos valores e mesma educação. Estou consciente de que não passa de um plano que pode sair totalmente furado, especificamente pela diferença de idades entre ambos, as diferenças temperamentais e, potencialmente, de caráter.

O plano foi elaborado com o melhor dos sentidos, criar-lhes uma oportunidade para que se possam apoiar mutuamente, para construírem uma relação que se correr bem, pode ser efetivamente uma relação incomparável a qualquer outra que venham a ter na vida e que os vai unir sempre, não só por laços sanguíneos, mas sobretudo, pelas memórias, recordações, experiências que só os dois poderão conhecer, perceber e comungar. É, e será sempre, um elo maior que os une, totalmente invisível a olho nu, mas de uma força descomunal que, se eles quiserem, nada nem ninguém poderá nunca abalar. Algo que vem de dentro e que nenhuma força exterior poderá corroer. Festejo, pois, as suas diferenças e rezo para que sejam eternamente fiéis um ao outro mas, sobretudo, a si próprios!

Não posso adivinhar o desfecho. Hoje basta-me saber que se adoram e que sentem a falta do outro a cada minuto que o outro não está. Que contam sempre com o apoio do outro, especialmente, nos momentos em que a situação se agudiza e carecem de um abraço ou um beijinho quentinho ao deitar na cama.

Hoje, celebro orgulhosamente o momento em que, pedindo ao mais velho que escreva sobre o melhor pequeno momento da sua vida, ele mencione sem hesitação, o dia em que o irmão nasceu e a emoção que sentiu quando o viu e pegou ao colo, pela primeira vez. Quero acreditar que esta é já uma vitória, que seguimos no bom caminho, que o plano tem tudo para ser bem sucedido e eles vão contar sempre um com o outro incondicionalmente, especialmente, quando os pais já cá não estiverem e eles tiverem de seguir em frente sem medo do escuro, do monstro Miúla ou do crocodilo. 🐊

 

 

Qua | 04.03.20

Detox e o Coronavírus

Frankie

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e s c a p e via @visualpursuit

Tem sido complicado manter um estado de espírito positivo e otimista com todas as notícias globais e  locais que temos recebido.

São notícias desastrosas por todo o lado, sobre tempestades, calamidades, guerras, todo o tipo de atrocidades, e agora para culminar, esta epidemia do coronavírus que quer, porque quer, condicionar e manipular todos os nossos movimentos, os poucos que ainda nos restavam.

Juro que tem sido um desafio tentar manter um equilíbrio saudável entre permanecer minimamente bem informada e a tentação de desligar totalmente do resto do mundo. Francamente, sinto que cheguei a um ponto em que já não sei o que é melhor.

A toda a volta parece que o mundo está prestes a desabar. Já não chegavam as notícias relacionadas com a deterioração ambiental, com os "incomodativos" desastres ecológicos, a destruição sem escrúpulos da Amazónia, dos oceanos, e agora esta “mega hiper cena” do coronavírus que veio definitivamente para pôr termo a um tempo em que apesar de todas as adversidades, ainda conseguíamos viver sem o medo de mandar os miúdos à escola.

Vivemos definitivamente num mundo totalmente tóxico, verdadeiramente angustiante, sobretudo para quem tem filhos e reflete na evolução a que temos assistido e, que tudo indica ser ainda mais assustadora no futuro.

O mundo mudou desde o (09/11) 11 de setembro. Todo o conceito de segurança e descontração se reverteu, passamos definitivamente a viver num cenário de guerra, de terror, um ambiente de perseguidores e perseguidos, um mundo onde estamos todos em perigo e ninguém está a salvo. Subverte-se o sentido da vida, tal como a idealizamos.

As notícias são constantes e sempre à volta dos mesmos temas, violência, abusos, crimes, desastres, catástrofes, guerras… há anos que deixei de acompanhar os noticiários em direto, sobretudo, quando os meus filhos estão presentes. A quantidade e qualidade de notícias que dominam estes fóruns, para mim ao ponto do terrorismo emocional, é absolutamente deprimente. Revelam um mundo totalmente contaminado, tóxico, onde a principal preocupação aparenta ser a disseminação de temas potencialmente depressivos e delapidadores de qualquer réstia de esperança sobre o futuro da humanidade. Insisto, por enquanto, nas notícias on-line e escolho as que quero ver e, só vejo quando me sinto com estrutura mental para dar atenção aos temas que mais perturbam.
Recuso e impeço que me entrem pela porta dentro, uma espécie de terrorismo mascarado que deturpa o verdadeiro sentido da informação.

A minha casa, a minha família, são o meu refúgio, onde e com quem ainda nos sentimos seguros e isso não quero e não posso permitir que afetem. Cá em casa estamos em segurança e podemos estar descontraídos e felizes! Aqui podemos dançar, cantar, pintar, ler e escrever, dedicar-nos integralmente ao que nos faz sentir bem, vivos e saudáveis. Aqui podemos controlar livremente e, aqui, escolhemos viver, escolhemos ser felizes!

A nossa paz de espírito não tem valor, temos de lutar para preservar o mais possível, custe o que custar. Sem isto não vamos conseguir… o meu esforço passa, por isso, por excluir, eliminar, bloquear, apagar e desligar de todos os meios, de todas as pessoas, de todos os ambientes, de todas as situações tóxicas que nos impeçam de alcançar este estado de paz, amor e felicidade. Aplicável a redes sociais, media em geral ou mesmo aos contactos pessoais da vida real do dia-a-dia.

Tudo ou todos os que nos desviem do nosso propósito máximo, devem ser resguardados da nossa presença, porque nós próprios ao tentarmos seguir estes princípios, podemos contaminar. Há que promover uma distância de segurança. Olá e adeus, agora,só acenando, e de bem longe!  

Objetivo final segue, sempre, sendo: VIVER (e não sobreviver). 

 

Seg | 02.03.20

Para sempre "Friends"

Frankie

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Lembram-se da Phoebe da série Friends? Claro que sim, quem não se lembra dessa personagem mega icónica que nos desconcertava totalmente com as suas estórias e as suas verdades oriundas de um mundo fantástico só seu, aparentemente ilusório, totalmente despropositado e desajustado no mundo real dos mortais, aqueles que aparentemente são os chamados “normais”.
Quem não se lembra de rir a bandas despegadas das piadas que soltava sem percebermos que muitas delas não eram simplesmente piadas, ou pelo menos piadas tão básicas como poderiam parecer, mas sim uma sátira inteligentemente posicionada a todos aqueles que se acham normais, só porque levam uma vida encarneirada, aparentemente em sintonia com o que é convencionado e aceite pela sociedade.

Eu adoro a Phoebe, para mim ela é e sempre foi o expoente máximo daquela série, nutro por ela um carinho quase inexplicável. Como se de alguma forma sentisse nela o meu alter-ego, o meu desejo de ser e transparecer toda aquela inocência, aquela honestidade de se assumir verdadeiramente sem receio de leituras ou interpretações. Dona de uma verdade essencial impossível de contornar e disfarçar, é irremediavelmente fiel à sua tribo, transparente e implacável, sagaz e astuta como só uma guerreira pode ser, mas sempre otimista, divertida e sempre pronta a aconchegar nos momentos mais difíceis. Aquela amiga que todos queremos e deveríamos ter. 

A Phoebe Buffay da série “Friends” existe na minha vida real. É tal e qual como a descrevo acima sem “ais”, sem “uis”. Convivi com ela diariamente durante anos, ensinou-me muito, sobretudo a digerir todo um estado de espírito completamente desajustado do meu, naquele tempo. Ensinou-me a dar e a receber os abracinhos mais quentinhos de sempre. Partilhamos muito, as dores, as inquietações, mas sobretudo as risadas e as conquistas, os melhores momentos. Foi num tempo muito feliz, um tempo em que partilhamos um “espaço de amor, compreensão e partilha de pessoas muito diferentes mesmo em termos de extrato social (…), pessoas que se amam, respeitam e querem o melhor para cada um! Um dia existiu este espaço que se perpétua no tempo.”
Tive a sorte de encontrar num local de trabalho uma segunda família, que embora muito diferentes entre todos, comungávamos mesmos princípios, mesmos valores, toda uma cumplicidade que ainda hoje nos une e é algo que, segundo muito boa gente, não é simplesmente possível encontrar num local de trabalho. Tivemos casamentos, tivemos divórcios, tivemos bebés, tivemos funerais… Hoje mantemos uma amizade que vai ser difícil ignorar, que vai perdurar. 

Tal como na série “Friends”, vivi com este grupo único de onde fazia parte a Phoebe Buffay e outros personagens igualmente singulares. Fizeram parte da minha vida em tempos e, agora, que a sua presença não é tão frequente na minha vida, sinto a falta.
Saudade da minha tribo...