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Jaguar Perfumado

aqui... asas para voar, raízes para regressar e motivos para ficar! - Dalai Lama -

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Qui | 20.08.20

Muito mais vida, lá fora...

Frankie

Carregava em si o peso tremendo das vidas que acumulava, talvez um peso demasiado colossal para quem se apresentava com uma estrutura tão frágil. Os seus 52Kg talvez não fossem suficientes para suportar tanto peso. Era, por isso, difícil de sustentar e, talvez mesmo, demasiado injusto.
Ninguém deveria ter esse desígnio.

mergulho_mar.jpgimg. by wattpad.com

Contudo, não era algo que pudesse escolher, era antes algo que lhe tinha sido imposto e ao qual, sabia, dificilmente poderia fugir. O remédio seria encontrar uma forma de tornar este peso menor para si, para a sua estrutura tão singela. Aprender a viver com isso pacificamente era realmente algo que tentava já há muito tempo, mas sem grande sucesso. Ignorar, como o tinha feito por tantos anos, já não era alternativa. A viabilidade de um projeto assim, depressa se revela estéril, ignorar ou negar, era algo que já tinha experimentado e hoje realizava que não era opção.  

Tinha passado todos os anos da sua vida a tentar enquadrar-se dentro de uma caixa que não tinha sido moldada para si. Uma caixa demasiado pequena e desenquadrada, onde tinha de conviver com regras, balizas, fronteiras, preconceitos que a cercavam e encurralavam e impediam de expandir horizontes, muito menos de os seguir. Até aqui, a sua maior preocupação passava claramente por seguir aquelas regras, agradar a todos os que a rodeiam, evitar insurgências de qualquer natureza de quem quer que fosse. Passar incólume, manter uma aparência de pacificidade coerente pois era importante que não destoasse dos demais, dessa forma, ninguém sentiria ensejo de questionar, pôr em causa o que quer que fosse.

Tudo isto teria, seguramente, resultado bem não fosse o incrível sentido de ansiedade que se manifestava em crescendo cada dia que passa. Uma necessidade de se revelar, de se expressar que desinibia e despoletava a vontade ardente de se expor e perseguir a sua verdadeira missão, desencadear a sua derradeira vocação. Passava por desencarnar uma alma que se mantinha enclausurada durante anos e que às tantas, já não se lembrava bem quem era pelo tempo que tinha permanecido oculta, menosprezada e relegada para uma dimensão ostracizada.

Desejava, precisava sair, encontrar-se, olhar com novos olhos, ver o que não tinha visto. Apreender uma nova realidade, que viria ressignificar e conferir todo um novo sentido à sua vida. Ver com os olhos, ver com o coração, ver com todos os seus sentidos que latejavam ansiosamente, carentes que estavam de se libertar das talas de bloqueio que apontavam um trajeto tão tendencioso e decadente.

A caixa estava prestes a romper, acabaria por ser dilacerada sem misericórdia e dar lugar a um espaço incrível de expansão, crescimento em liberdade. Não poderia persistir. Seria finalmente desmantelada, antes que pudesse explodir e o efeito fosse ainda mais chocante e avassalador do que o que já seria agora, quando o mundo, finalmente, enxergasse esta nova feição, tão mais leve, livre de cargas ou outros fardos.

Estava prestes a emergir daquela água gelada que, naquele ponto, já tinha enregelado as suas entranhas. Estava furiosa por pressentir o caminho árduo que a aguardava.

Aguentara a violência do mar, mas não estava certa de que aguentasse a violência de um abraço da sua própria vida.